Do falsificacionismo popperiano

A produção do conhecimento científico, na perspectiva do racionalismo crítico de Karl Popper (1902-1994), deve-se sobretudo à racionalidade judicante de uma sociedade imaginativa e aberta às experiências de falsificação dos sistemas teóricos vigentes. Em A Lógica da Pesquisa Científica, o autor sustenta que "as teorias científicas nunca são inteiramente justificáveis ou verificáveis, mas que, não obstante, são susceptíveis de se verem submetidas a prova, [... enfatizando que] a 'objetividade' dos enunciados científicos reside na circunstância de eles poderem ser intersubjetivamente submetidos a testes" (Popper, 1972, p. 50), ou seja, proposições científicas seriam hipóteses falsificáveis cuja medida de aceitabilidade dependeria do grau da corroboração refutante.

Nessa perspectiva, a lógica da pesquisa é pensada a partir do modelo do jogo interminável, em que o valor de verdade agregado a uma teoria se deve a sua resistência às falsificações, e não à insistência das verificações [e, aqui, importa não confundir verdade e validade, pois esta diz respeito à lógica do pensamento]. Assim, em matéria de ciência, o valor de verdade de uma proposição universal nada deve à insistência das ocorrências empíricas a que ela se remete. Isso significa dizer que o que torna verdadeira a proposição todos os cisnes são brancos não é a insistente recorrência de cisnes brancos, e sim a resistente ocorrência de pesquisas por um cisne não branco. Desse modo, a universalidade das proposições científicas deixa de ser absoluta, como em todo x é p, e passa a ser genuína, como em todo x é p, enquanto a imaginação não encontrar um modo de que algum x não seja p. A imaginação criadora, de que teriam dado exemplo Newton, Kekulé, Fleming, Franklin e outros cientistas distanciados da ortodoxia metodológica, é a instância crucial da pesquisa falsificacionista.

Com efeito, para Popper, não são as instâncias da observação, da verificação e da indução que garantem o caminho seguro da ciência, e sim a criatividade dirigida à falsificação das proposições universais absolutas apregoadas por positivistas-indutivistas, contra os quais Popper cita o anedótico caso do peru de Natal que, tendo sido engordado por um longo período de tempo, verificou, em sua volumosa e detalhada planilha de registros das ocorrências empíricas que observara atentamente por toda a sua vida, a insistência do algarismo 9 na coluna hora junto às anotações de Recebimento de Ração. O peru, vendo-se diante da instância crucial da indução, positivamente inferiu a seguinte proposição de caráter universal e absoluto: Todas as 9h serei alimentado!. E a data em que publicou essa maravilhosa descoberta científica coincidiu com a da véspera da ceia natalícia em que se serviu, como alimento, um peru indutivista.[1]

Notas

[1] NOTA CONEXA À AULA CE11C2A11 DO CURSO MITOS HOMÉRICOS — O massacre dos pretendentes como alegoria da falsificação

1. O episódio e a chave de leitura. O canto XXII da Odisseia narra a mnesterofonia, a matança dos pretendentes que, durante a longa ausência de Odisseu, ocuparam o palácio de Ítaca, consumiram seus rebanhos e pressionaram Penélope a escolher um novo marido. A leitura proposta nesta nota toma o episódio como emblema do falsificacionismo exposto na aula, cujo desenvolvimento oral está registrado na apostila correspondente (Costa, 2026). Os pretendentes sustentam, sem nunca a submeter a prova, uma proposição de forma universal: Odisseu não voltará. Vinte anos de ausência funcionam para eles como a planilha do peru indutivista: uma longa série de ocorrências favoráveis convertida em lei. O retorno do rei é o caso singular que derruba essa universalidade de um só golpe, segundo a assimetria lógica que Popper opõe à indução: nenhuma acumulação de casos confirmadores verifica uma proposição universal, mas um único caso contrário basta para refutá-la (modus tollens). A anedota do peru, aliás, é uma adaptação da galinha com que Russell ilustra o problema da indução em Os problemas da filosofia (cap. VI), popularizada em versão natalina por Chalmers. A etimologia sustenta a leitura. Mnestér, o pretendente, vem de mnáomai, cortejar, aparentado a mnéme, memória: é quem tem alguém em mente; e o latim prae-tendere, de onde vem pretender, diz estender diante de si uma reivindicação, que o pretendente toma por posse. A proposição dos pretendentes é uma thésis (de títhemi, pôr, assentar): algo posto e ocupado, como os tronos de Odisseu em que estão sentados. Falta-lhe ser hypóthesis, o que se põe por baixo, à maneira dos degraus e trampolins a que Platão compara as hipóteses, que servem para subir e não devem ser tomadas pelo chão (República, VI, 511b). Nesse sentido, o massacre dos pretendentes é o que acontece quando teses não aceitam tornar-se hipóteses.

2. O palácio, o arco e os deuses. Alguns elementos do relato ganham, nessa chave, valor epistemológico preciso.

A anomalia ridicularizada. Antes do massacre, a realidade emite sinais que os pretendentes tratam como ruído: o presságio das águias interpretado por Haliterses (Od. 2.146-176); o falcão que despedaça uma pomba à vista de Teoclímeno, quando Telêmaco desembarca em Ítaca (15.525-534); o mendigo que não cambaleia quando Antínoo lhe atira um escabelo (17.462-465); e sobretudo a visão de Teoclímeno, que vê as paredes gotejando sangue e os pretendentes envoltos em trevas, enquanto Eurímaco o chama de louco e os demais riem (20.345-372). É o comportamento típico de quem protege uma teoria: o dado que não se encaixa é desqualificado, não investigado. O poema marca esse riso de dois modos. Os pretendentes riem "com mandíbulas alheias" (20.347), como se a máscara já não lhes pertencesse; e Odisseu, quando Ctesipo lhe atira uma pata de boi, sorri no íntimo o riso sardônico (20.301-302), o esgar entre riso e dor que antecede a morte. Os avisos vieram também em palavras: Mentor apelou à memória do rei (2.229-241) e o próprio mendigo preveniu Anfínomo de que o dono da casa estava perto (18.125-150). Os pretendentes dispunham da linguagem para discutir os sinais e preferiram rir deles.

O arco como instância crucial. A prova proposta por Penélope (canto XXI) não admite meio-termo: ou se encorda o arco e a flecha atravessa os doze machados, ou não. Os pretendentes aquecem o arco ao fogo e o untam com sebo (21.176-185), um remendo técnico que não altera o resultado. Antínoo propõe adiar a prova para depois da festa (21.256-268), isto é, prefere não testar. Quando o mendigo pede a vez, a disputa sobre quem tem direito ao teste expõe quatro atitudes (21.273-358). Antínoo o exclui pelo estatuto: um mendigo embriagado não tem lugar na prova. Eurímaco teme menos o resultado do que a origem de quem refuta: seria para eles um élenkhos, um opróbrio, que um errante armasse o arco que nobres não armaram (21.320-329); a palavra que em Homero diz a vergonha dará, mais tarde, o nome da refutação socrática. Penélope sustenta que o hóspede pode tentar, porque a prova vale independentemente de quem a faz (21.330-342), e Telêmaco encerra a disputa pela autoridade de dono do arco e da casa, usando o poder para remover a exclusão (21.343-353). É a posição de Popper: a crítica não pede credenciais, mas precisa de instituições que mantenham a porta aberta. Os doze machados, cravados um a um numa vala e alinhados a prumo (21.120-123), formam uma fileira de pontos de prova que uma só flecha deve atravessar. Odisseu encorda o arco sem esforço e atira sentado (21.404-423). O que a aula chama de instância crucial tem aqui sua imagem mais nítida: um teste capaz de dar errado e cujo resultado não se negocia.

Apolo e Atena: as duas metades do método. O massacre ocorre no dia da festa de Apolo arqueiro (20.276-278; 21.258-259), e Odisseu o invoca antes do primeiro disparo (22.7); Atena, por sua vez, preside a cena inteira. Os dois deuses podem figurar as duas metades do método que Popper distingue: a lógica do teste, que deduz consequências e elimina o que falha, e a invenção das hipóteses e dos próprios testes, para a qual, segundo ele, não há método lógico algum, mas apenas uma "intuição criadora" (Popper, 1972, §2). Nenhuma das duas basta sozinha.

Lógica sem imaginação. Apolo figura o rigor da prova: a flecha atravessa os doze machados ou não, como a dedução que, pelo modus tollens, transmite à hipótese a falsidade da consequência. Mas a lógica só examina o que lhe é proposto; não cria hipóteses nem inventa as situações em que elas se arriscam. O arco não teria sido posto à prova se Atena não tivesse inspirado Penélope a propor o concurso (21.1-4). Os pretendentes ilustram o limite. Eurímaco argumenta com aparente rigor contra o presságio das águias, lembrando que muitas aves voam sob o sol e nem todas portam presságio (2.181-182); mas a sua crítica só sabe negar, e, incapaz de imaginar o retorno disfarçado, conserva por inércia a tese de que Odisseu morreu. Diante do arco, os pretendentes repetem os procedimentos de sempre, o fogo e o sebo, sem conceber outro caminho. Lógica sem imaginação refuta, quando muito, o que outros propuseram; não inventa o teste capaz de refutar a si mesma. O eclipse de 1919 só se tornou instância crucial porque Einstein imaginou, antes, que a luz poderia curvar-se.

Imaginação sem lógica. Atena, deusa da métis, figura a outra metade: a imaginação que disfarça o herói, concebe o estratagema, aparece sob a forma de Mentor e desvia as lanças inimigas (22.205-240, 256-259, 273-274). Na imagem popperiana da mente como holofote, e não como balde, conhecer é projetar conjecturas e procurar ativamente onde falham (Popper, 1975); a astúcia de Atena é esse holofote, e o poema o torna literal quando a deusa ilumina o salão com uma lâmpada de ouro enquanto pai e filho retiram as armas (19.33-43). Entregue a si mesma, porém, a imaginação não decide nada. Leodes, que lia presságios na fumaça dos sacrifícios, produzia interpretações sem fim, nenhuma exposta a prova; os defensores de Eusapia Palladino encontraram, a cada fraude descoberta, uma razão para que o fenômeno continuasse verdadeiro. O próprio Odisseu, mestre das narrativas falsas que conta em Ítaca (13.256-286; 14.192-359; 19.165-202), não reconquista a casa por elas: os disfarces só valem porque desembocam no arco. Imaginação sem lógica multiplica hipóteses, mas não as leva a termo; sem o teste que elimina umas e poupa outras, todas permanecem igualmente possíveis, e nenhuma se torna conhecimento.

A teia e o arco. Penélope reúne as duas metades. Desfazendo à noite a mortalha de Laertes (2.93-110), mantém aberta a hipótese que todos davam por refutada: não aceita como encerrada uma questão que ainda não foi testada. A teia, porém, é por si só uma espera sem fim, e só se interrompe quando uma serva denuncia o artifício (2.108-110). O gesto decisivo de Penélope é outro: converter a esperança em prova, propondo o concurso do arco (19.570-581; 21.68-79). Quem imagina que o retorno ainda é possível é também quem inventa a condição capaz de confirmá-lo ou desmenti-lo. A teia mantém viva a hipótese; o arco a submete ao juízo. Entre uma e outro está o método inteiro: lógica sem imaginação não inventa testes; imaginação sem lógica não os leva a termo.

A égide e o pânico. No meio da luta, Atena ergue do alto do teto a égide "que destrói os mortais" (22.297-298). O verbo, anéskhen, diz um gesto de baixo para cima, como quem levanta um estandarte; o efeito é que desce. A égide não fere ninguém: atinge as phrénes, a sede do juízo, e os pretendentes fogem pelo salão como bois que o tavão (oîstros) ataca na primavera, enquanto Odisseu e os seus caem sobre eles como abutres sobre pássaros (22.299-309). Em Homero, phóbos não é o medo como sentimento, mas a fuga em debandada: apavorar e dispersar são um só efeito. A mesma deusa, no mesmo salão, provocara em Telêmaco não pavor, mas espanto: "Pai, é uma grande maravilha isto que vejo" (19.36). O espanto é o choque que se converte em problema, e por isso Aristóteles faz dele o começo da filosofia, já que quem se espanta reconhece a própria ignorância (Aristóteles, 2002, I, 982b12-21); o pânico é o choque que não encontra onde se alojar. A diferença não está na deusa, mas em quem a recebe: para quem segura as crenças como hipóteses, a refutação é espantosa; para quem as segura como posse, é fatal. O símile guarda ainda uma ironia. O inseto é provavelmente a mosca do bicho-de-chifre (Hypoderma bovis), que não pica, mas cujo zumbido basta para dispersar o rebanho: o gado foge antes do dano, guiado por uma expectativa inata que Popper chamaria de teoria encarnada, selecionada pela eliminação dos que não a tinham (Popper, 1975, cap. 7). Os pretendentes, que tinham a linguagem para discutir os avisos, só fogem quando já não há saída.

3. Cinco modos de refutação. Odisseu não elimina todos os adversários da mesma forma, e cada morte pode ser lida como uma experiência distinta da falsificação (Fig. 2).

Antínoo (antí, "contra", e nóos, "mente"): o líder dos pretendentes, filho de Eupites, a quem o próprio Odisseu salvara outrora de uma multidão enfurecida (16.424-430). Arquiteto da emboscada contra Telêmaco e o único a agredir fisicamente o mendigo, morre levando à boca uma taça de ouro, com a flecha atravessando-lhe a garganta (22.8-21; Fig. 3). É a indução dogmática surpreendida pelo cisne negro: nenhuma defesa, nenhuma revisão, apenas o colapso. O paralelo histórico mais próximo é o lysenkoísmo, que recusou a genética mendeliana por razões ideológicas e perseguiu seus opositores, entre eles Nikolai Vavilov.

Eurímaco (eurýs, "amplo", e máche, "luta"): após a queda de Antínoo, atribui-lhe toda a culpa e oferece reparação em bronze e ouro (22.45-59). Odisseu recusa (22.61-67), e a flecha o atinge no peito e se crava no fígado (22.79-88; Fig. 4). É a hipótese ad hoc, o que Popper chama de estratagema convencionalista: diante do fato contrário, sacrifica-se uma parte periférica (Antínoo) e acrescenta-se um ajuste (o pagamento) para salvar o núcleo. O próprio Popper cita como exemplo a contração de Lorentz-FitzGerald, introduzida para salvar a hipótese do éter após o experimento de Michelson-Morley. Há ainda uma ironia que vale explorar com os alunos: quem pretendia pagar com metal o que pôs na barriga recebe o bronze justamente no órgão da digestão.

Anfínomo (amphí, "em ambos os lados", e nómos, "lei, costume"): o pretendente sensato, o que mais agradava a Penélope e que se opusera ao assassinato de Telêmaco. O mendigo o adverte explicitamente de que o dono da casa está próximo; ele pressente o mal, mas permanece, e o poeta diz que Atena o prendeu ali para morrer pela lança de Telêmaco (18.119-157). Morre atingido pelas costas (22.89-98; Fig. 5). É a teoria verossímil presa a um quadro falso: elegante, honesta, quase certa, e ainda assim errada. A morte pelas mãos do filho, e não do pai, sugere que teorias assim costumam ser superadas por uma nova geração de pesquisadores, vindos de onde não se olhava. Joseph Priestley, que isolou o oxigênio mas morreu fiel ao flogisto, é o paralelo clássico.

Leodes (leîos, "liso, polido"): o thyoskóos, adivinho que lia presságios na fumaça dos sacrifícios, sentado junto à cratera de vinho. Foi o primeiro a tentar o arco e não conseguiu encordoá-lo (21.144-166). No massacre, abraça os joelhos de Odisseu e alega ter sido apenas o sacerdote do grupo. Odisseu responde que, se era o adivinho deles, muitas vezes terá rogado para que o retorno do rei não se cumprisse, e o decapita com a espada de Agelau; a cabeça rola no pó enquanto ele ainda fala (22.310-329; Fig. 6). É a pseudociência e o problema da demarcação: um discurso que se coloca fora do alcance da prova e, por isso mesmo, nada arrisca. A cabeça que continua falando é imagem eloquente da doutrina que sobrevive à própria refutação. Popper situava aí a astrologia e o historicismo que anuncia o curso inevitável da história.

Melâncio (mélas, "negro", e ánthos, "flor"): não é pretendente, mas o cabreiro da casa, que se bandeara para os usurpadores. Durante a luta, sobe pelas passagens laterais do mégaron até o depósito e traz escudos e lanças aos pretendentes (22.135-146). Capturado por Eumeu e Filécio, é amarrado e içado a uma coluna (22.160-200); ao fim, é mutilado (22.474-477; Fig. 7). Já não se trata de erro, mas de fraude: a manipulação das condições do teste para que a hipótese condenada sobreviva. O caso do Homem de Piltdown, montagem forjada que desviou a paleoantropologia por quatro décadas (1912-1953), é seu equivalente histórico. A distinção é central para a ética popperiana: o erro honesto é o combustível da ciência; a fraude é um ataque às suas regras.

4. Quadro sinóptico.

PersonagemEtimologiaModo da morte (Od.)Dinâmica da falsificaçãoParalelo históricoEcos na cultura pop
Antínoo"contra a mente"Flecha na garganta, bebendo (22.8-21)Indução dogmática refutada pelo cisne negroLysenkoísmoGen. Chang (Star Trek VI); Cornélio Fudge
Eurímaco"luta ampla"Flecha no fígado, após negociar (22.45-88)Hipótese ad hoc; estratagema convencionalistaContração de Lorentz-FitzGerald e o éterSaruman; Lúcio Malfoy
Anfínomo"lei de ambos os lados"Lança nas costas, por Telêmaco (22.89-98)Verossimilhança sob paradigma falsoPriestley e o flogistoBoromir; Draco Malfoy
Leodes"o liso"Decapitado enquanto falava (22.310-329)Pseudociência; demarcaçãoAstrologia; historicismoGríma Língua de Cobra; Gilderoy Lockhart
Melâncio"flor negra"Mutilado (22.474-477)Fraude; sabotagem do testeHomem de PiltdownTen. Valeris (Star Trek VI); Pedro Pettigrew

5. O holofote e as estacas. Duas metáforas de Popper organizam o que o episódio encena. A do holofote responde à pergunta sobre a origem do conhecimento: a mente não é um balde que a experiência enche de baixo, mas um projetor que lança luz a partir de um problema (Popper, 1975, apêndice). A das estacas responde à pergunta sobre o fundamento: a ciência não repousa sobre rocha firme; a estrutura ousada das suas teorias ergue-se sobre um pântano, como um edifício sobre estacas cravadas de cima, que não alcançam nenhum fundo natural e que deixamos de aprofundar não por termos chegado a solo firme, mas por as julgarmos, por ora, firmes o bastante para sustentar a estrutura (Popper, 1972, §30). As duas recusam a mesma tese, a de que o conhecimento viria de baixo, do dado; luz e estaca são lançadas, não recebidas. Popper não nomeia Veneza, mas a cidade realiza a imagem por inteiro, e foi com ela que a aula a ilustrou.

A estaca entre natureza e cultura. As estacas são os enunciados básicos: aceitos por decisão da comunidade crítica, como o veredito de um júri, motivado pela experiência mas não justificado por ela (Popper, 1972, §30). A estaca fica, assim, na junta entre phýsis e nómos: a natureza resiste por baixo, sem argumentar; a cultura pesa por cima, argumentando; e a estaca se firma por estar comprimida entre as duas. Daí o nome que a aula lhe deu: sub-iectum, o lançado por baixo, de onde vem sujeito; o ob-iectum é o que se lança contra ele e resiste. Como os pregos de uma cama de faquir, nenhuma estaca carrega sozinha o peso, mas basta uma mais alta que as outras para ferir: é a assimetria vista por baixo. E nada disso é natureza bruta: a laguna só continua laguna porque a República desviou os rios que a assoreariam, e cada estaca é uma árvore cortada e cravada.

O holofote na linha d'água. As estacas de Veneza conservam-se por séculos onde estão totalmente submersas no lodo, sem oxigênio, e apodrecem na faixa que a maré molha e seca. É para lá que o holofote deve apontar: não para o alto do edifício, mas para a linha d'água, onde a teoria toca o que pode refutá-la. O conhecimento de fundo, submerso e intocado, é aceito provisoriamente para que se teste a borda. Nem se pode isolar a estaca do pântano com um balde que a proteja: ela sustenta pelo atrito com o mesmo lodo que a ameaça, e uma estaca que nada toca nada sustenta. Esse invólucro é o estratagema convencionalista; quanto mais uma teoria proíbe, mais se expõe e mais diz (Popper, 1972, §§20, 31-35). O holofote, por fim, está montado sobre as próprias estacas, como o campanário de São Marcos, de onde Galileu mostrou a luneta aos senadores venezianos em 1609 e que desabou em 1902: não há mirante fora da cidade, nem luz única. A Veneza popperiana é iluminada por muitos pontos, e cada um corrige os outros. A Morte em Veneza de Thomas Mann mostra o avesso: autoridades que ocultam a cólera e um olhar que se desvia do que o refutaria.

A casa sobre a falsa rocha. Os pretendentes assentavam a casa sobre uma rocha aparente, Odisseu não voltará, que a chegada do rei converteu em pântano. O único fundamento firme do poema, o leito talhado numa oliveira ainda enraizada (23.183-204), é a estaca perfeita: phýsis por baixo, téchne por cima. Mesmo ele, porém, não vale como dado: Penélope o converte em prova, um enunciado básico que só se sustenta porque dois o reconhecem. A mesma madeira aparece na outra ponta do poema, na estaca de oliveira que Odisseu crava no olho do Ciclope, entre seres que "não têm assembleias nem leis" (9.112; 9.375-394): ali a cultura se crava contra a natureza sem nómos; em Ítaca, sustenta o reconhecimento.

Objetividade e tolerância. Essa objetividade é uma forma de convivência. Kant chamou de insociável sociabilidade o antagonismo pelo qual os homens desenvolvem suas disposições, e ilustrou-o com as árvores de uma floresta, que crescem retas porque disputam umas com as outras o ar e o sol, ao passo que a árvore isolada cresce torta (Kant, 2004, 4ª e 5ª proposições; Kant, 1996). Veneza, como dizem os venezianos, é uma floresta invertida: troncos cravados para baixo, firmes porque vizinhos. A floresta de Kant dá a metade hostil, e a de Veneza a metade amistosa, da "cooperação amistoso-hostil" que, para Popper, faz a objetividade científica; o Robinson Crusoé engenhoso, mas sem ninguém que o contradiga, não a alcança (Popper, 1974, v. 2, cap. 23). Em Kant, o antagonismo pode ser pensado como se servisse a um plano da natureza, a título de ideia reguladora e não de profecia; Popper conserva o antagonismo e atribui os fins apenas a nós: a história não tem sentido, mas podemos dar-lhe um (Popper, 1974, v. 2, cap. 25). A tolerância é a instituição que torna essa convivência possível. Popper parte da definição de Voltaire, para quem a tolerância é o apanágio da humanidade, porque somos todos feitos de fraquezas e erros (Voltaire, 1978), e dela tira o falibilismo: eu posso estar errado e você pode estar certo, e, por um esforço, podemos chegar mais perto da verdade (Popper, 1974, v. 2, cap. 24; Popper, 2006). Tolerância com as pessoas, intolerância com os erros: é assim que as hipóteses morrem em nosso lugar.

6. Odisseu: corroborado, não verificado. A vitória no salão não encerra as provas. Odisseu ainda será reconhecido pela cicatriz que Euricleia apalpa (19.386-475) e, sobretudo, testado por Penélope com o segredo do leito de oliveira (23.173-204). Mesmo a "teoria" vencedora só é aceita depois de resistir a mais um teste. É exatamente o estatuto que Popper atribui às teorias que sobrevivem: não verdadeiras para sempre, mas corroboradas até aqui. Note-se também que o próprio Odisseu age como experimentador: antes de agir, testa a lealdade de Eumeu, dos servos e das servas.

7. Limites da alegoria. Toda alegoria cobra um preço, e convém explicitá-lo em aula. (a) A inversão popperiana. O sentido do racionalismo crítico é justamente substituir a eliminação de pessoas pela eliminação de ideias: deixamos que nossas hipóteses morram em nosso lugar (Popper, 1975). Popper o diz pela comparação entre a ameba e Einstein: o método é o mesmo, ensaio e eliminação do erro, mas a ameba morre com o seu erro, e o cientista deixa as hipóteses morrerem em seu lugar (Popper, 1975, cap. 7). O massacre está do lado da ameba, e a alegoria só funciona se lembrarmos que, na ciência, quem morre é a teoria, não o teórico. A ironia é também etimológica: amoibé, de onde vem ameba, é em Homero a troca, a retribuição devida ao hóspede (1.318), justamente o que os pretendentes, que devoravam a casa (1.250-251), nunca deram. (b) Discernimento, não extermínio. Odisseu poupa o aedo Fêmio e o arauto Medonte, cujo testemunho de coação Telêmaco confirma (22.330-380): a refutação exige critério, e nem todo presente no salão é cúmplice; Fêmio cantou para os pretendentes, mas "à força" (22.351-353), sem fazer do canto uma tese própria. O caso das doze servas é mais delicado. Condenadas a partir do testemunho de Euricleia e enforcadas por Telêmaco, que as conhecia (22.417-473), elas mostram o limite do teste: a identidade de Odisseu estava bem estabelecida, mas a culpa de cada uma era interpretação, e quem a julgou foi a parte ofendida. O próprio Leodes, diz o poeta, era o único que se indignava com os desmandos dos pretendentes (21.146-147), o que torna sua execução mais problemática do que a alegoria sugere. (c) A refutação não fecha o ciclo. No canto XXIV, Eupites conduz as famílias dos mortos à vingança e só a intervenção de Atena impõe a paz (24.413-548). Popper reserva o direito de não tolerar os intolerantes, os que respondem ao argumento "com punhos ou pistolas" (Popper, 1974, v. 1, cap. 7, n. 4); os pretendentes, que responderam aos avisos com riso e ao mendigo com projéteis, cabem nessa nota. Mas o direito é de contê-los, não de exterminá-los, e o poema parece sabê-lo: a vingança se reproduziria sem fim se a deusa não impusesse o esquecimento. Na história da ciência, também, teorias refutadas deixam herdeiros ressentidos. (d) Outra leitura possível. O episódio presta-se igualmente à reflexão de Derrida sobre a hostipitalidade: a hospitalidade pressupõe a soberania do dono da casa, que decide quem é hóspede e quem é intruso, e essa soberania pode converter-se em hostilidade. Confrontar as duas chaves de leitura é um bom exercício crítico. (e) Um precedente antigo. A interiorização do massacre não é invenção nossa. Nos parágrafos finais de O antro das ninfas, o neoplatônico Porfírio de Tiro (séc. III; Porfírio de Tiro, 2022) lê Odisseu como a alma que atravessa o mundo da geração e deve regressar à sua pátria. Quando o herói, já em Ítaca, esconde seus bens na gruta e se senta com Atena ao pé da oliveira para tramar a morte dos pretendentes (Od. 13.372-373), Porfírio vê ali a alma que delibera com a sabedoria como extirpar as paixões que a assediam. A leitura converge com a nossa em três pontos: o palácio é uma interioridade, a eliminação é planejada pela inteligência (Atena) e não pelo arrebatamento, e o despir dos trapos figura o abandono do que é alheio à verdade. Converge ainda num quarto, menos evidente: Popper também enraíza o dogmatismo numa propensão psicológica, a expectativa de regularidades que nos leva a impor padrões ao mundo e a apegar-nos a eles (Popper, 1982, cap. 1); Antínoo, o peru e a alma porfiriana sofrem do mesmo apego. As diferenças, porém, são decisivas. Para Porfírio, o inimigo é a paixão; para Popper, é o erro subtraído à prova, que pode ser sereno e desapaixonado como Anfínomo, ao passo que a paixão de conjecturar é o motor da ciência. Para Porfírio, a alma purificada encontra repouso no inteligível; para Popper, não há Ítaca definitiva, apenas teorias que sobreviveram até agora. E o próprio Popper combateu a herança platônica de que Porfírio é tributário (A sociedade aberta e seus inimigos). O precedente relativiza a objeção (a): a tradição exegética converteu a violência do canto XXII em ascese muito antes de nós a convertermos em epistemologia.

8. Para discussão. (i) Que sinais da volta de Odisseu os pretendentes desqualificaram, e por quê? (ii) Distinga, com exemplos atuais, uma hipótese ad hoc de uma revisão legítima de teoria. (iii) Por que Popper considera a fraude mais grave que o erro? (iv) A morte súbita de Antínoo, sem tempo para mudar de ideia, pode ser comparada à primeira alma do mito de Er, que escolhe às pressas a vida do tirano (Platão, República, 619b-d), enquanto a alma de Odisseu escolhe por último, com calma, a vida de um homem privado (620c-d). O que essa comparação acrescenta à ideia de exame crítico? (v) A mesma Atena provoca espanto em Telêmaco (19.36) e pânico nos pretendentes (22.297-309). O que essa diferença diz sobre a atitude de quem é refutado? (vi) Na disputa sobre o direito do mendigo de tentar o arco (21.273-358), que personagem defende a posição de Popper sobre quem pode criticar uma teoria? (vii) Onde deve apontar o holofote numa cidade sobre estacas, e por quê?

Imagens
Odisseu, com os trapos de mendigo caídos aos pés, dispara do limiar do salão ao lado de Telêmaco; Antínoo, reclinado, deixa cair a taça de ouro; uma andorinha pousa na viga e, lá fora, fumega um altar de Apolo
Friso em estilo de figuras vermelhas com cinco cenas rotuladas: Antínoo bebendo diante do cisne negro, Eurímaco oferecendo lingotes e apontando o culpado, Anfínomo atingido pelas costas por Telêmaco, Leodes ajoelhado junto ao altar fumegante e Melâncio escalando a parede com armas; à direita, Odisseu retesa o arco
Fig. 1 — O início da mnesterofonia no dia da festa de Apolo arqueiro: Odisseu despe os trapos, salta para o limiar e abate Antínoo com a taça nos lábios (Od. 22.1-21). A andorinha na viga evoca Atena (22.239-240). Fig. 2 — A mnesterofonia popperiana: os cinco modos de refutação em friso de figuras vermelhas, da indução dogmática à fraude (item 3 e quadro sinóptico).
Ficha ilustrada de Antínoo: etimologia, epistemologia e paralelo histórico
Ficha ilustrada de Eurímaco com o escudo remendado das hipóteses ad hoc
Fig. 3 — Caso 1: Antínoo, a indução dogmática e o cisne negro. Fig. 4 — Caso 2: Eurímaco, a hipótese ad hoc.
Ficha ilustrada de Anfínomo atingido pelas costas pela lança de Telêmaco
Ficha ilustrada de Leodes ajoelhado, abraçando os joelhos de Odisseu, com balões de fumaça cheios de sinais vagos ao lado de um altar
Fig. 5 — Caso 3: Anfínomo, a verossimilhança sob paradigma falso. Fig. 6 — Caso 4: Leodes, o thyoskóos e a pseudociência: a súplica de quem nada arriscou (Od. 22.310-329).
Ficha ilustrada de Melâncio capturado, com o saco de armas roubadas
Fig. 7 — Caso 5: Melâncio, a fraude e a sabotagem do teste.

Referências

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COSTA, Israel Alexandria. O massacre dos pretendentes: o arco, as cinco mortes e o falsificacionismo. Arapiraca, AL: Grupo de Pesquisa Gnosiologia, Ética e Informação / CNPq / Ufal, 14 out. 2026. 23 p. Apostila da Aula 11 do Curso Livre Mitos Homéricos. Gravação da aula disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Cyu0EhS_9KI. Acesso em: 18 out. 2026.
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Atividade(s)

1) 405/pl/fc_s10